Até onde somos responsáveis pelo que despertamos nos outros?
- Tatiana Carneiro

- há 7 horas
- 8 min de leitura
Influenciar não é determinar comportamentos. Mas nossas palavras, escolhas e informações podem modificar probabilidades, e isso também nos torna responsáveis.

"A maturidade começa quando deixamos de perguntar apenas "quem sou eu" e passamos a refletir sobre os efeitos que produzimos nas pessoas ao nosso redor."
Quando comecei a compartilhar reflexões filosóficas, ensinamentos e conteúdos sobre valores que faziam sentido para mim, havia um propósito: oferecer algo que pudesse contribuir positivamente para a vida de outras pessoas, como quem lança pequenas sementes em sua própria rede.
Ao mesmo tempo, eu também compartilhava minha vida pessoal: minhas conquistas, minhas escolhas, meus passeios e aquilo que me fazia feliz. E foi aos poucos que comecei a perceber que tudo isso também comunicava alguma coisa e produzia efeitos que eu nem sempre conseguia antecipar.
Aquilo que para mim era expressão podia chegar ao outro como influência.
Uma mesma conquista poderia despertar admiração em alguém, inspiração em outra pessoa e, em outra, comparação ou inveja.
Foi então que surgiu uma pergunta desconfortável: se aquilo que fazemos desperta emoções e pode modificar comportamentos, até onde somos responsáveis pelo efeito que provocamos nas outras pessoas?
Em meio a esse processo, decidi diminuir minha exposição. Fechei meu perfil pessoal, reduzi muito aquilo que compartilhava e passei a preservar mais a minha vida privada.
Mas essa experiência também me levou a perceber que a questão não é escolher entre influenciar ou não influenciar.
Enquanto estivermos em relação, estaremos influenciando e sendo influenciados.
A questão talvez seja outra: O que significa influenciar eticamente?
Influenciar não é determinar
Existe uma diferença fundamental entre reconhecer nossa influência e acreditar que somos responsáveis por tudo aquilo que o outro sente.
Duas pessoas podem receber exatamente a mesma mensagem e reagir de maneiras completamente diferentes.
Uma história pode inspirar alguém e incomodar outra pessoa. Uma crítica pode provocar reflexão em uma e defensividade em outra. Uma conquista pode despertar esperança, indiferença ou comparação.
Isso acontece porque nenhuma informação chega a uma mente vazia.
Ela encontra uma história.
Encontra crenças, valores, memórias, experiências anteriores, expectativas, vulnerabilidades e um determinado estado emocional.
Por isso, nossa presença não determina aquilo que o outro sentirá.
Mas isso também não significa que nossa influência seja irrelevante.
E é justamente aqui que a questão se torna mais complexa.
Nós apenas despertamos aquilo que já existe?
Quando nossa presença desperta admiração, inspiração ou inveja em alguém, é importante reconhecer que não criamos sozinhos essas emoções. Aquilo que o outro sente também é resultado de sua própria história, de suas crenças, experiências, desejos e vulnerabilidades.
Essa compreensão devolve a quem recebe a influência uma responsabilidade importante sobre seu próprio mundo interno. Mas ela não explica tudo.
Seres humanos aprendem.
Formamos associações, adquirimos hábitos, modificamos crenças, imitamos comportamentos, incorporamos referências e mudamos nossas escolhas a partir das experiências e das pessoas com quem convivemos.
Isso significa que um estímulo pode ativar disposições anteriores, mas também pode participar da formação de novas associações e comportamentos.
É aqui que a influência deixa de ser apenas uma questão sobre como cada pessoa recebe um estímulo e começa a exigir também uma discussão sobre a responsabilidade de quem o produz.
Quando a influência modifica probabilidades
Pensemos em um exemplo extremo: a divulgação de plataformas de apostas por influenciadores digitais. Nem toda pessoa exposta a uma propaganda de apostas desenvolverá um transtorno relacionado ao jogo.
Existem diferenças individuais, contextos sociais, vulnerabilidades e histórias anteriores.
Seria inadequado, portanto, afirmar que um influenciador "causou" sozinho o comportamento de determinada pessoa.
Mas seria igualmente inadequado concluir que sua participação é irrelevante.
A repetição da mensagem, a associação da aposta ao sucesso, a demonstração pública de ganhos, a confiança depositada na figura do influenciador e a normalização daquele comportamento podem alterar a maneira como determinadas pessoas percebem o risco e contribuir para suas escolhas.
Uma das ideias mais importantes para compreender a influência é esta: A influência modifica probabilidades; ela não determina comportamentos.
E modificar probabilidades também produz responsabilidade.
Quanto maior o alcance, maior pode ser o número de pessoas vulneráveis expostas àquela mensagem.
A questão ética deixa então de ser apenas "eu obriguei alguém a fazer isso?" e passa a incluir outra pergunta:
"Que comportamento estou ajudando a tornar mais provável?"
Somos todos uma rede de influência
Essa discussão não se limita aos grandes influenciadores.
Todos participamos de redes de influência. Compartilhamos notícias, histórias, livros, produtos e opiniões. Cada pequena ação acrescenta informação ao ambiente social.
Essa preocupação com aquilo que colocamos em circulação não é recente. Anos atrás, ela já estava presente no nascimento do projeto Tatiana Eu Sou.
Eu me incomodava com a quantidade de tragédias, conflitos e conteúdos negativos que circulavam nas minhas redes sociais. Minha reação foi simples: se eu estava cansada de receber determinados estímulos, poderia começar a oferecer outros.
Comecei a compartilhar mensagens que considerava construtivas. Era uma intervenção minúscula dentro de uma rede gigantesca, mas toda rede é formada por pequenas participações.
E há evidências de que conteúdos negativos possuem vantagens importantes nessa disputa pela nossa atenção.
Em 2024, pesquisadores publicaram na revista científica Scientific Reports uma análise de aproximadamente 95 mil notícias, acompanhando como elas foram compartilhadas em cerca de 579 milhões de publicações nas redes sociais. Os resultados indicaram que artigos classificados como negativos tinham quase o dobro da probabilidade de serem compartilhados em comparação com os artigos positivos.
Outro estudo, publicado na Nature Human Behaviour, analisou mais de 105 mil variações de manchetes testadas experimentalmente, responsáveis por aproximadamente 5,7 milhões de cliques em mais de 370 milhões de impressões. Para uma manchete de tamanho médio, cada palavra negativa adicional esteve associada a um aumento de aproximadamente 2,3% na taxa de cliques; palavras positivas, por sua vez, estiveram associadas à redução dessa taxa.
Isso cria um círculo vicioso preocupante: prestamos mais atenção ao negativo e, ao prestar atenção, clicamos. Ao clicar, ensinamos às plataformas que aquele conteúdo captura nossa atenção. Quando compartilhamos, ampliamos seu alcance. Produtores de conteúdo observam aquilo que gera engajamento e podem produzir mais do mesmo.
Assim, uma predisposição humana individual pode transformar-se em uma característica do ambiente informacional coletivo.
Uma rede negativa não é construída apenas por quem produz conteúdos negativos. Ela também é construída por milhões de pequenas decisões de quem os consome e compartilha.
O poder das redes de informação
Em seu livro Nexus: Uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial, o historiador Yuval Noah Harari percorre milhares de anos de história investigando como a informação ajudou seres humanos a construir sociedades, instituições e estruturas de poder.
Uma das ideias centrais da obra é particularmente importante para esta reflexão: informação e verdade não são sinônimos.
Redes de informação podem permitir que grandes grupos humanos cooperem, compartilhem conhecimento e construam instituições. Mas sua capacidade de fazer informações circularem não garante que aquilo que circula seja verdadeiro.
Isso nos obriga a olhar não apenas para a informação que recebemos, mas também para os caminhos que ela percorreu até chegar até nós.
Entre uma informação e aquele que a recebe pode existir uma extensa rede de intermediários.
Podemos observar isso nos textos considerados sagrados.
Quando alguém abre uma Bíblia ou um Alcorão hoje, encontra uma obra que possui uma longa história anterior ao momento da leitura.
Ambos atravessaram processos humanos de registro, preservação, compilação e tradução ao longo do tempo.
Independentemente da crença de cada pessoa sobre a origem divina ou inspirada das escrituras sagradas, há uma realidade histórica amplamente documentada: entre a origem atribuída a uma mensagem e aquilo que chega às nossas mãos existe uma cadeia de transmissão humana, e seres humanos são falíveis.
O mesmo princípio pode ser aplicado a uma notícia. Não estamos diante do acontecimento em si, mas de um relato produzido a partir da seleção de informações, fontes e palavras. Isso não significa que toda notícia seja uma distorção da realidade, mas que informações transmitidas por seres humanos passam por processos humanos de seleção, organização e comunicação.
Hoje existe ainda outra camada de mediação: os algoritmos.
Um algoritmo pode parecer apenas um mecanismo técnico que "mostra aquilo que as pessoas querem ver". Mas alguém definiu os critérios de seleção, as métricas valorizadas e os objetivos do sistema.
Quando essa mediação se torna invisível, existe o risco de o poder ser exercido sem que pareça haver alguém escolhendo.
A frase "foi o algoritmo" pode ocultar uma questão essencial: Quem decidiu como esse algoritmo deveria escolher?
Influenciar eticamente exige reconhecer nossa participação na produção, transmissão e circulação das informações que ajudamos a colocar no mundo.
Quanto maior o poder, maior a responsabilidade
Nem todas as pessoas exercem o mesmo grau de influência.
Uma conversa entre amigos não possui o mesmo alcance de uma mensagem transmitida a milhões de seguidores. Da mesma forma, uma opinião individual não possui necessariamente o mesmo peso de uma afirmação feita por alguém reconhecido como especialista ou legitimado por uma instituição.
Por isso, quanto maior a autoridade, o alcance e a capacidade de produzir consequências, maior deveria ser também a responsabilidade sobre a influência exercida.
Precisamos de instituições capazes de corrigir seus erros, jornalistas comprometidos com a apuração, uma ciência aberta à revisão diante de novas evidências, plataformas responsáveis pelos sistemas que constroem e influenciadores conscientes do alcance que possuem.
Uma rede confiável não deveria ser aquela que afirma nunca errar, mas aquela que reconhece sua própria falibilidade e possui mecanismos para identificar e corrigir seus erros.
Mas nenhum desses mecanismos elimina nossa responsabilidade individual.
Não podemos terceirizar nossa consciência.
Antes de incorporar uma informação às nossas convicções ou colocá-la novamente em circulação, podemos investigar sua origem, verificar as evidências que a sustentam e permanecer abertos à possibilidade de estarmos errados.
Isso exige algo particularmente difícil: desconfiar também das informações que confirmam aquilo que já pensamos.
Porque pensamento crítico não é apenas questionar aquilo de que discordamos. É submeter nossas próprias convicções ao mesmo rigor que exigimos das convicções dos outros.
Quanto maior o poder de uma pessoa, instituição ou rede para influenciar aquilo que outras pessoas conhecem, acreditam ou fazem, maior também deveria ser sua responsabilidade sobre a influência que exerce.
Então, onde termina minha responsabilidade?
Ainda não tenho uma resposta definitiva.
Mas talvez já seja possível estabelecer algumas fronteiras.
Não somos responsáveis por todas as emoções que despertamos nas outras pessoas. Não controlamos a história de quem recebe nossas palavras, nem podemos determinar todas as interpretações possíveis.
Mas somos responsáveis.
Pela honestidade daquilo que comunicamos, pela intenção com que utilizamos nossa capacidade de persuasão, pelo cuidado diante das vulnerabilidades que conhecemos e pela disposição de corrigir aquilo que descobrimos estar errado.
E, principalmente, somos responsáveis por reconhecer que nossa liberdade de expressão não elimina as consequências daquilo que ajudamos a tornar mais provável.
Influenciar eticamente, portanto, não significa evitar qualquer impacto negativo ou assumir responsabilidade por tudo aquilo que acontece dentro do outro.
Significa reconhecer que fazemos parte de uma rede.
Nossas palavras, nossos comportamentos e aquilo que compartilhamos entram nela. E cada um de nós ajuda, em alguma medida, a construir o ambiente informacional no qual todos vivemos.
Talvez seja por isso que hoje eu não queira mais escolher entre me expressar e me apagar.
Quero aprender uma terceira possibilidade: estar presente com consciência.
Continuar compartilhando aquilo em que acredito, celebrando aquilo que considero bonito e oferecendo ideias que possam contribuir para uma vida mais consciente.
Mas lembrando que toda influência carrega poder e todo poder merece responsabilidade.
Não podemos escolher tudo aquilo que nossas palavras despertarão no outro. Mas podemos escolher, com cada vez mais consciência, aquilo que decidimos colocar em circulação no mundo.
Referências Bibliográficas
Yuval Noah Harari - Nexus: Uma Breve História das Redes de Informação, da Idade da Pedra à Inteligência Artificial - Investiga como as redes de informação moldaram sociedades, instituições e estruturas de poder ao longo da história, discutindo especialmente a relação entre informação, verdade, influência e mecanismos de autocorreção;
Joe Watson, Sander van der Linden, Michael Watson e David Stillwell - Negative Online News Articles Are Shared More to Social Media - Estudo publicado na Scientific Reports em 2024 que analisou mais de 95 mil notícias e cerca de 579 milhões de publicações em redes sociais, encontrando maior probabilidade de compartilhamento para notícias negativas;
Claire E. Robertson, Nicolas Prollochs, Kaoru Schwarzenegger, Philip Parnamets, Jay J. Van Bavel e Stefan Feuerriegel - Negativity Drives Online News Consumption - Estudo publicado na Nature Human Behaviour em 2023 que analisou cerca de 105 mil variações de manchetes e demonstrou que palavras negativas aumentam a probabilidade de clique, enquanto palavras positivas tendem a reduzi-la.

Eu sou Tatiana, entusiasta das ciências e estudiosa sobre tudo o que faz bem à mente, corpo e espírito.
Gratidão pela visita!
Gostou do conteúdo? Registre-se para receber notificações. Curta e compartilhe com os amigos!

Comentários